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sábado, 21 de julho de 2012

CONTO MICTÓRIO

José Marcelo

O rosto no espelho de um mictório público imundo. Um rosto marcado, sujo, velho, feio. Apenas outra noite fodida morrendo no canto do mundo.

E a luz do sol - rascunhos de claridade na janela empoeirada que não trazem nenhum prazer.

E a porta que se abre com uma pancada seca:

__ Que porra, Leroy, olha quem tá aqui! Olha quem tá aqui. Filho da puta filho da puta. Você não imagina o quanto eu queria te encontrar. Tá vendo, Leroy, tá vendo quem tá aqui?

A rizada de Leroy é um cacarejo:

__ Ic ic ic ic ic. É ele, Junior, é ele sim.

Ele não olha. O seu rosto no espelho o hipnotiza e ele – ele quer apenas ir para casa.

__ Que porra, se não é aquele merda que bateu na nossa Suely.

Ele sente o fedor da bebida quando Junior murmura em seu ouvido:

__ Oi, seu merda. Sabe o que acontece agora, não sabe? Seu merda. Seu MERDA.

Ele não olha – continua mijando. Um jato amarelo, fétido, longo.

Quando eles o acertam – quando eles empurram sua cabeça contra o espelho e a carne amassada expele sangue e dor – ele não grita.

Eles o chutam e cospem e esmurram por tempo demais, mas ele não grita.

Suely gritou e chorou e pediu pelo amor de Deus não faz isso não faz pelo amor de Deus não não não faz isso alguém me ajuda – Suely chorando encolhida no chão, nua e cheia de feridas enquanto ele a espancava e comia. Pelo amor de Deus não. E ele apenas sorrindo e dizendo vou comer seu cu e depois de comer seu cu vou te bater mais e mais, apenas ignorando Suely por favor me deixa não faz isso não faz isso.

Agora, Junior ofegante e trêmulo de raiva o chuta de novo e diz:

__ Então, gostou filho da puta? Gostou? O quê? O que você disse?

Ele repete:

__ Diga a Suely.

__ O quê? O QUÊ?

__ Diga a ela que ela foi a melhor foda da minha vida.

 

Mais contos aqui.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

PIERROT

José Marcelo

enfaixada

A mulher calou-se. Apertava o volante com tanta força que seus dedos estavam brancos demais, como mármore gelado.

__ O que você vai fazer? __ perguntou ela.

O homem desfigurado observava a casa nua através do pára-brisa imundo. Ele pegou a arma no porta-luvas e abriu a porta do carro com a mão enfaixada, manchada de sangue, trêmula. Saiu andando devagar pela estrada enlameada.

A mulher também desceu.

__ Isso vai dar em nada, a não ser dor __ disse ela.

A floresta à beira da estrada parecia uma mortalha, silenciosa e exalando um odor carregado, enquanto ambos se aproximavam da casa.

A mulher disse:

__ Vamos embora.

__ Não.

__ Não? Por que não?

__ Não. Só isso. Não.

__ Você quer morrer?

O homem olhou-a demoradamente, mas sem diminuir o passo, para que ela pudesse ver as cicatrizes, as marcas, a dor. Ela não pareceu abalar-se:

__ Isso não é motivo.

__ É o suficiente.

__ Eu te peço. Não faça isso. Não.

__

__ Você não tem medo?

__ Nada.

__ Como?

__ Antes eu sentia medo, raiva, vontade de chorar, um monte de coisas.  Sentimentos. Agora, agora eu não sinto nada.

__ Deixa pra lá, por favor, deixa pra lá. Esquece. Não faz isso. Eu te peço.

__ Você devia ter ficado no carro.

Ela parou. Começara a chover, uma chuva fina e fria. A chuva pesou sobre seus cabelos e ela ficou olhando-o entrar na casa.

Fechou os olhos e esperou pelo barulho dos tiros.

domingo, 2 de maio de 2010

A Pequena Fada

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A pequena fada disse:

- Chega!

A pequena fada derrubou o seu amo  e desapareceu no ar como uma névoa que se dissipa ao amanhecer de um dia quente e sem nuvens.

sábado, 1 de maio de 2010

Tatuada

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Ela virou-se para mim, despida e, no entanto, coberta de um modo que me fez querer ver cada centímetro de sua maravilhosa pele.

domingo, 25 de abril de 2010

SOBRE COELHOS

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Ela escondeu-se apenas porque queria ser notada.

O BONECO E A DAMA

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Ela disse ao boneco:

- Você ao menos me ama.

- Não - respondeu o boneco. - Sou o seu escravo.

- Foi o que eu disse.

segunda-feira, 22 de março de 2010

GANSU NU

José Marcelo

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Eu costumava acordar babando numa sala fria que tinha cheiro de mijo e merda. Eu me levantava e cambaleava até a janela gradeada. Eu gostava de ficar olhando as nuvens que tinham formas bizarras e a cor do céu que para mim sempre lembrou desespero e outra coisa que não gosto de lembrar. Eu gritava à noite e chorava e balançava o corpo de dia. Em meus melhores dias eu simplesmente ficava parado no meio da sala, sem me importar com os ecos e risos e choros e esbarrões dos outros. Em meus piores dias eu era amarrado em uma cama velha e sedado. Eu sonhava com uma mulher muito alta e muito bela que me deixava em êxtase e aterrorizado – depois eu acordava molhado e com marcas nos pulsos e tornozelos. Durante um tempo eu fui um louco e indigente internado em um hospício e durante um tempo parecia que seria assim para sempre. E durante muito tempo foi.

Mas para sempre é tempo demais e um dia eu fui declarado curado e colocado em um ônibus.

Saltei na última parada e estava chovendo. Havia um bar do outro lado da rua – o nome GANSO NU pintado na vidraça – e pisei em poças úmidas e corri até entrar em seu interior razoavelmente seco. Lá dentro estava abafado, embora chovesse, abafado como em um forno. Um velho ventilador girava como se fosse cair do teto de metal onde a chuva batia com força. O bar estava vazio. Eu me sentei em um canto. Enfiei a mão no bolso de onde tirei um punhado de notas amassadas. Não era muito, apenas o suficiente para uma semana, se eu economizasse bastante.

Uma garota de quinze ou quatorze anos apareceu ao meu lado e perguntou o que eu desejava. Ela sorria. Logo eu descobriria que sorrir para ela era algo tão natural como, não sei, respirar talvez. Eu olhei desanimado para meu dinheiro bagunçado e tentei sorrir. Acho que ela percebeu meu embaraço, porque disse, o prato do dia é bem barato. Eu, ah tudo bem. Ela, eu não demoro. E afastou-se.

Sobre o balcão havia um enorme pintura mal feita de um ganso com palavras tão apagadas entre suas pernas que praticamente ninguém poderia ler. Havia uma prateleira com garrafas de tantas cores que eu não reconheci muitas delas. Atrás do balcão, um homem com um pano cobrindo a cabeça lavava copos de costas para mim.

Alguém entrou, um sujeito de sobretudo, chapéu e barba rala, e sentou-se ao balcão. Eu vou beber um desses seus vinhos incrivelmente ruins, disse ele. Um homem inquieto, estendeu ambas as mãos abertas sobre o balcão, sorrindo muito, olhando ao redor, me vendo e sorrindo. Tirou o chapéu, exibindo uma cabeça raspada. Como vai, meu chapa?

Eu, Como?

Ele, perguntei como vai. Não precisa responder, tudo bem. Chuva dos diabos, não?

A menina voltou (o homem com o pano na cabeça continuava lavando copos e ignorando as pessoas ao redor). A menina perguntou, o que vai querer, senhor?

Ele virou-se para ela. Um vinho, disse, qualquer vinho. Sei que vou detestar de qualquer jeito.

Ora, você não pode ter tanta certeza.

Sim, posso, respondeu ele. Acredite em mim.

Qualquer um?

É. Qualquer um. Aquele com o pirata seria bom.

Hein?

Qualquer um.

A menina serviu-lhe uma dose. Deixe a garrafa, disse ele.

Ela deixou a garrafa e virou-se para mim. Não demora agora, disse ela. E voltou para a cozinha.

O careca tornou a encher o copo. Desviei o olhar. A menina trouxe o prato do dia e um refrigerante. Mas não afastou-se. Eu o conheço?

Eu, duvido. Desculpe.

Ela, é. Eu sou Cristina.

Eu, Mérimée.

Ela, Mérimée? Nome engraçado. Bem, vou deixá-lo em paz.

Está tudo bem.

Ela assentiu e voltou a desaparecer.

O careca disse, uma gracinha, hein? Linda.

Ignorei-o e comecei a comer. Estava com mais fome do que imaginara.

O careca sentou-se diante de mim. Não se lembra de mim? disse ele. Não, não, não se lembra. Se se lembrasse, não estaria tão calmo, certo?

Larguei o garfo. Muito bem, disse eu. Quem é você?

Puta merda. Você não se lembra mesmo. Assim não vai ter graça.

O que não vai ter graça?

Quando eu te matar.

Cai fora, lunático. Eu estava perdendo a paciência.

Ei, não é justo. Não era eu que estava internado na casa dos loucos. Bem…

O careca deu de ombros e colocou a pistola sobre a mesa. Ouvi um grito de susto. Era a menina, os olhos fixos na arma.

Sem olhar para ela, o careca disse, ei, menina bonita, por que você e o esquisito ai não vão para a cozinha e ficam por lá. Isso não é com vocês.

Quando o sujeito largou os copos na pia (eu o imaginara com uma expressão indiferente, mas agora ele parecia praticamente aterrorizado) e empurrou a menina para a cozinha, o careca acrescentou, estou num daqueles dias de ser bonzinho. Mas não se anime. Não vou ser bonzinho com você. Coma.

Perdi o apetite.

Não seja tolo. É sua última refeição.

Não, obrigado.

Hunf. Ele coça a cabeça, torna a me olhar. Hora da história, então. Mãos na mesa, anda, não vai fazer besteira agora.

Eu não preciso saber.

Eu preciso que você saiba.

Não faz diferença para mim.

Para mim faz. Para mim faz muita diferença.

Eu me levanto.

O que está fazendo? ele pergunta.

Se vai atirar, faça logo.

Hunf.

O barulho da chuva havia silenciado. Havia apenas o ventilador, girando e estalando.

Então tá, disse o careca. E atirou em mim.

Sabe, eu te segui desde a porra do hospício, disse ele. Imaginei que teríamos uma longa conversa. Eu lhe diria quem sou. Contaria o que você fez. Te mataria. Iria para casa e comemoraria. Simples. Mas você tinha que ser mal educado e estragar tudo.

Ele falava e eu estava estirado no chão, sangrando.

Ele continuou, puta que pariu, velho. Puta que pariu. Está certo. Isso já se prolongou demais. Não quis comer sua última refeição. Não quis ouvir minha história. Vai pelo menos dizer suas últimas palavras?

Eu cuspi sangue, me virei e tentei erguer-me. Não consegui. Eu comecei a arrastar-me, deixando um rastro vermelho. O careca caminhava sem pressa atrás de mim.

Isto é por Lara, disse ele. Este nome te diz alguma coisa? Lara. Lara. Nada?

Eu lembrei de uma mulher linda olhando a lua lá fora. Uma lua vermelha em uma noite quente. Ela virando-se para mim, meio trêmula, assustada, perguntando, eu vou ficar bem?

Eu vou ficar bem?

Sim, eu menti, não se preocupe.

O careca, agora, apontando a arma para minha nuca e sorrindo ao ver a expressão em meu rosto. Você se lembra.

Quem… era… ela?

Ele não responde. Apenas atira.

domingo, 21 de março de 2010

LOBOS E CAPUZES VERMELHOS

José Marcelo

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                                “Quanto mais doce a língua, mais afiados os dentes.”

Charles Perrault

O Lobo a viu no instante em que ela entrou no bosque. Ele a desejou mais do que tudo e, com seu desejo, ele condenou-se.

Durante um tempo, o Lobo apenas acompanhou-a. Uma figura sorrateira por entre a densa vegetação, os olhos amarelos faiscando, o pelo eriçado, o desejo aumentando.

Então, ele a abordou. Suavemente.

— Olá, linda garotinha — disse o Lobo.

— Olá — respondeu ela.

— Não sente medo, andando sozinha pelo bosque?

— Por que sentiria? E meu nome não é garotinha, é Chapeuzinho Vermelho.

— Um nome apropriado.

— Isso não importa. Nomes nem sempre são apropriados, são apenas nomes. Agora tenho que ir.

— Por que a pressa?

— Vou para a casa da Vovó. Tenho que levar essa cesta para ela.

— Mas sua companhia me é agradável. Gostaria de conversar mais.

Chapeuzinho Vermelho olhou-o demoradamente, de um modo que deixou o Lobo inquieto. Chapeuzinho passou a língua pelos lábios e sorriu.

— Muito bem. Mas eu realmente não posso demorar muito. Vovó pode ficar preocupada.

— Sei que ela vai entender, quando você disser com quem estava.

—Sim.

Ela despiu-se do capuz e soltou os cabelos, macios, longos, claros como seus olhos. Olhos que eram verdes e azuis dependendo da luz.

A claridade de fim de tarde, filtrada por entre os galhos, era dourada e o cheiro da relva era fresco e macio.

O Lobo desviou os olhos, o coração acelerado. Foi Chapeuzinho quem primeiro falou:

— Nada a dizer?

— Como? — O Lobo parecia confuso. Piscou. Sorriu. — Sim, naturalmente. Não quer sentar-se?

Ela sentou-se e colocou a cesta de lado. O Lobo deitou-se ao seu lado e sorriu.

— Você é uma garotinha estranha.

— Não sou tão nova quanto aparento.

— Bem, qualquer pessoa teria medo em andar sozinha por esse bosque.

— Eu não. Sabe por quê?

— Não.

— Por que eu sei o que é a coisa mais perigosa do bosque, e também sei que ele não me feriria. Não aqui, não agora. Estou errada?

Um brilho de raiva passou pelos olhos do Lobo, mas tão rápido que provavelmente Chapeuzinho nem percebeu ou fingiu não perceber

— Não esteja tão certa.

— Mas eu estou.

O Lobo ergueu-se e sumiu por entre as folhagens. Era como se nunca estivesse estado ali. Mas ele ainda a observava, de algum lugar no bosque.

Chapeuzinho ergueu-se, arrumou o capuz, limpou a grama do vestido e pegou sua cesta; ela retomou sem caminho e, em nenhum momento, olhou para traz. O Lobo não percebeu que a mão que não segurava a cesta tremia levemente. O Lobo, então, teve uma idéia, e acelerou o passo. Chegaria primeiro à casa da Vovó.

A Vovó abriu a porta e morreu.

O Lobo não tinha tempo para sutilezas. Ele estava com pressa. Ele apoiou as patas sobre o peito da Vovó e começou a arrancar a pele e a carne da senhora. Uma enorme mancha vermelha como vinho antigo espalhou-se pelo assoalho e tornou-se preto no canto da sala. Ele arrancou o coração dela e colocou-o num prato sobre a mesa, recolheu um copo de sangue e colocou-o ao lado do prato.

Então limpou toda a sujeira, enfiou-se sob os lençóis na cama da Vovó.

E esperou. Não teve que esperar muito.

Logo ouviu Chapeuzinho Vermelho chamando.

— Entre — disse o Lobo, imitando a voz de uma velha senhora. — Entre, minha querida.

Chapeuzinho Vermelho abriu a porta, alegre, sorrindo, mas logo fez uma careta.

— Que cheiro estranho — disse ela.

— Não é nada. Não está com fome?

— Sim. Mas esse cheiro...

Chapeuzinho Vermelho largou a cesta no chão e disse:

— Para a senhora.

— Dispa-se.

— Sim, Vovó.

Ela obedeceu; tirou o capuz e o vestido, as sapatilhas e o pingente; novamente ela soltou os cabelos e agora seus olhos tinham uma tonalidade clara e suave.

— Queime suas roupas. — mandou o Lobo.

— Sim, Vovó. — Chapeuzinho jogou as roupas no fogo e ficou observando-as. O fogo dançava uma dança secreta.

— Agora, alimente-se. Você vai se sentir melhor.

— Sim, Vovó.

Ela sentou-se à mesa, comeu o coração de sua avó e bebeu o sangue.

— Agora, venha cá.

Ela caminhou até a cama, enfiou-se sob os lençóis e sentiu o pelo eriçado do Lobo. Ela aninhou-se junto a ele.

— Você não é minha avó — disse ela, calmamente.

— Não, não sou — respondeu o Lobo, desanimado. Ela era suave e macia como ele imaginara.

— Eu soube quando bebi o sangue. Pensei que fosse vinho, mas era sangue.

— Era.

— Tudo bem. Estava bom.

Ela passou a mão sobre o pelo do Lobo e fechou os olhos.

— Você me quer agora?

— Sim.

— Vai doer?

— Não muito.

— Eu confio em você — disse Chapeuzinho Vermelho e sorriu para o Lobo. — O que vem depois?

— Depois?

Ele não soube responder. Colocou carinhosamente a pata sobre ela, aproximou a boca da garganta dela e sentiu o cheiro dela. Ele lembrou-se de alguns tipos de flores que eram raras e desabrochavam apenas uma vez por ano; essas flores cheiravam assim. Como algo intocado e puro.

Na lareira, o fogo queimava as cinzas das roupas dela. Chapeuzinho Vermelho fechou os olhos. Na mesma hora a porta do guarda-roupas abriu-se e o corpo da Vovó, as entranhas penduradas e o rosto desfigurado numa expressão de surpresa e horror, parte da caveira aparecendo, apareceu como que para observar a cena com olhos esbugalhados.

— Que eu morrer, quero dizer. O que vem depois? — perguntou Chapeuzinho Vermelho.

— Não sei — teve que admitir o Lobo.

O Lobo beijou Chapeuzinho Vermelho primeiro, depois a matou rapidamente. Ficou com o focinho enfiado na ferida que lhe fizera na garganta, como se não quisesse mais sair de dentro dela.

Era alta madrugada e a lareira iluminava parcialmente o quarto. O Lobo estava sentado no chão, olhando pesarosamente para a cama. Chapeuzinho Vermelho, nua e morta, estava estendida sobre lençóis brancos manchados de sangue, os olhos fechados, calma como se estivesse dormindo. O Lobo não conseguira devorá-la. Mas por quê?, perguntava-se. Por quê? Ele não queria olhar para Chapeuzinho, mas não conseguia desviar os olhos.

— Por quê? — perguntava-se.

— Não é óbvio, animal estúpido? — disse a velha dentro do guarda-roupas. O Esforço de falar fizera escorrer sangue como baba de sua boca escancarada.

— Você deveria estar morta.

— Talvez. Mas minha neta não.

— Eu... sinto muito.

— Meio tarde para isso, não?

—Os mortos não deveriam falar.

— Não. Você está louco. É apenas isso.

— E o que importa?

— Você deve enterrá-la.

— Para que ela descanse em paz — insistiu a Vovó morta. — Você deve fazê-lo.

Com uma pá encontrada nos fundos e sob a lua cheia que era como um olho cheio de cicatrizes, ele cavou uma cova. Observado pelas criaturas do bosque, que se mantinham ocultas no escuro, pois ele era o Lobo, o ser mais perigoso do bosque, e todos o temiam, ele trouxe Chapeuzinho e colocou-a dentro da cova. Ele a cobriu de terra e voltou para dentro da cabana.

Sentou-se na cama, ergueu-se, pegou os lençóis e jogou-os no fogo da lareira; então fez uma tocha e começou a colocar fogo nos móveis e na madeira da casa.

Depois ficou observando o fogo erguer-se e consumir a casa rapidamente, como vermes na carne apodrecida.

Naquela noite, o Lobo subiu numa colina e uivou tristemente; mas dessa vez não era um lamento para a lua... Não, o lobo chorava por Chapeuzinho Vermelho.

Nessa noite, quando finalmente dormiu, o Lobo sonhou com seios cortados e flores brancas escurecendo rapidamente em um carmim que gotejava e gotejava. Ele andava por entre as flores e era como uma sombra maldita num lugar de luz e serenidade. Mas era uma paz falsa. Com seus sentidos aguçados ele podia perceber o mal, oculto nos cantos, entre as folhagens, na grama, nos espinhos que lhe arranhavam as patas. Ele exibiu os dentes, pontiagudos e a saliva acida. Começou a correr na direção do bosque e por um segundo viu uma mão acenando para ele, uma figura encapuzada (um capuz vermelho) ao longe. Então a figura desapareceu e ele duvidou que realmente a tivesse visto.

Ao amanhecer, ele voltou à casa da Vovó e lá havia apenas madeira queimada e cinzas, o esqueleto chamuscado de uma casa e nada mais. O Lobo deu a volta na casa e ficou diante da cova onde enterrara Chapeuzinho Vermelho. Os olhos dele estreitaram-se e ele recuou instintivamente. A cova fora violada, a terra revolvida. Ele farejou e escavou. Chapeuzinho Vermelho não estava lá.

Ele procurou pelo bosque e todos os habitantes da floresta, animais ou não, todos se esconderam. Então uma velha coruja aproximou-se e pousou num galho alto o suficiente para fugir se ele a atacasse e lhe contou o que acontecera.

— Foi tarde da noite — contou a Coruja. — Eu ouvi sons que não eram o da madeira crepitando no fogo ou mesmo carne velha cozinhando. Não. O fogo já se extinguira. Restara apenas uma fumaça de cheiro azedo subindo no ar. Era outro som. Como um eco de desespero. Era um cavar. Um cavar horrendo, cheio de angústia e terror. Não demorou e percebi de onde vinha. Vinha da cova de Chapeuzinho Vermelho. Seu tolo. Ela estava viva e tentava sair!

— Não. Impossível. Acha mesmo, Coruja, que não sei distinguir um corpo vivo de um morto?

— Sei que você bem o sabe, sim. Mas morta, eu lhe digo, ela não estava.

O Lobo estremeceu.

— Mas como é possível? — perguntou ele.

— E o que não é?

— Logo eu vi as pontas dos dedos de Chapeuzinho e o rosto dela e ela estava gritando e gritando e chorando. Ela arrastou-se para fora da cova, cuspindo terra, trêmula. Encolheu-se e ficou assim durante um tempo longo demais, não sei quanto. Então, ela ergueu-se e saiu da clareira e entrou no bosque. Eu a segui. Ela cambaleava entre as raízes até alcançar a trilha. Parecia desorientada. Uma figura estranha, coberta de terra e sangue seco. Ela caminhou até a estrada, onde caiu e ficou lá estendida, os olhos fitando vazios o céu, enquanto ao longe um lobo uivava... até que um carro passou e a levou.

O Lobo nada disse. A imagem de Chapeuzinho lutando para sair da cova o perseguia.

Mais tarde, quando a bala dos homens entrasse em sua carne e ele caísse no rio gelado, sendo arrastado pela forte correnteza, enquanto as balas ainda lhe eram disparadas, ele se lembraria do dia em que, depois de muitos anos, ele decidira novamente vestir a roupa e a aparência dos homens para ir à Vila dos Cantos à procura da garota que ele assassinara.

O Lobo chegou à vila ao amanhecer de um dia cheio de nuvens carregadas e chuva fina e fria. Encolhido dentro de um sobretudo surrado e fora de moda, ele atravessou a pequena ponte que era a entrada para a vila. Peixes nadavam e pulavam na água clara. Do outro lado da ponte, havia uma praça e na praça, uma igreja, bancos, árvores e um pub. O nome do pub era “A Toca” e o Lobo achou aquilo um bom presságio. Entrou no pub e o mesmo estava quase vazio. O Lobo foi até o balcão e um homem muito magro e muito alto perguntou-lhe o que queria.

— Algo para esquentar — disse o Lobo.

O homem assentiu e serviu-lhe uma dose de algo que o Lobo achou ácido demais, mas que realmente espantou um pouco do frio. Ele olhou ao redor. Dois homens jogavam xadrez de modo demasiadamente lento, como duas estátuas sem a menor vontade de mover-se. Uma mulher de roupas e gestos vulgares olhava triste um quadro na parede; no quadro, uma casa feita de doces. A mulher chorava silenciosamente.

O homem alto disse alguma coisa que ele não entendeu.

— Como?

— Perguntei se está só de passagem, veio visitar alguém ou o quê? — perguntou o homem, educadamente.

O Lobo pensou em dizer que estava só de passagem, mas pensou melhor:

— Vim visitar alguém, mas estou com um problema. Não sei onde essa pessoa mora. Talvez possa me ajudar.

— Como assim? Vem visitar uma pessoa e não sabe onde ela mora?

— Faz muito tempo que estive aqui — disse o Lobo, refletindo que isso era verdade.

— Muito bem — disse o homem alto, meio desconfiado. — Quem?

— Chapeuzinho Vermelho.

A expressão de desconfiança do homem mudou para pesar.

— Então você não sabe?

— O quê?

— Algo horrível aconteceu a ela.

— O que aconteceu?

— Ela foi atacada por ladrões quando foi visitar a avó dela. Os malditos a largaram no meio da estrada, em estado deplorável. E queimaram a casa da avó da menina. Pode acreditar? Na minha opinião, deviam ser alguns desses loucos que iam visitar a velha às vezes. Dizem que ela era bruxa, então se morreu queimada, foi algo bem merecido. Porém, Chapeuzinho não tinha que ver isso. Mas você é o quê? Algum parente?

— Isso. Um parente.

O homem alto assentiu, ensinou o caminho para o Lobo e disse que não precisava pagar a dose, é por conta da casa. O Lobo agradeceu e virou-se. Quase bateu de cara com a mulher que antes olhara o quadro. Os olhos dela ainda estavam úmidos.

— Eu o conheço? — perguntou ela. Ela o olhava atentamente, tentando lembrar de onde conhecia aquele homem de roupa surrada e modos estranhos. Sim, ele não era realmente estranho? O jeito como ele olhava tudo, como caminhava. Como se não se lembrasse mais o modo certo de fazê-lo.

— Não creio — respondeu ele, e saiu pela porta.

A casa de Chapeuzinho Vermelho ficava no fim de uma rua que subia num declive quase totalmente vertical, mas o Lobo, acostumado a correr no bosque por longas distâncias, não teve dificuldade em alcançá-la. Ele não bateu na porta imediatamente. Ouviu um rosnar e quando olhou, viu um enorme cachorro preto, o pelo curto e liso, latindo para ele. O Lobo exibiu os dentes e deixou o cachorro vislumbrar seus olhos amarelos. Foi o bastante para que o cachorro saísse correndo.

Quando tornou a olhar para a porta, levou um susto. Uma mulher estava parada na porta, olhando-o curiosa. A mãe de Chapeuzinho, adivinhou o Lobo.

— Posso ajudá-lo, senhor? — perguntou ela.

— Sim, quer dizer, estou procurando Chapeuzinho Vermelho.

A mulher olhou-o.

— E quem é o senhor? — perguntou ela.

— Mamãe?

Ele reconheceu a voz de Chapeuzinho e estremeceu. A chuva batia em seu chapéu e ele encolheu-se mais ainda.

— Entre — disse a mulher, e subiu os degraus que levavam ao andar superior.

O Lobo entrou e era uma sala espaçosa e confortável. Um degrau a separava da sala de jantar, onde havia uma enorme mesa de carvalho. Sobre a mesa, uma espingarda. O Lobo andou até a arma e pegou-a.

Estava examinando-a quando ouviu uma voz ríspida às suas costas:

— Solte-a já.

Ele virou-se. Um homem estava parado na porta, segurando uma caixa de balas e o olhava carrancudo. O Lobo soltou a arma.

— Desculpe. Eu não pretendia... Estava apenas admirando-a.

O homem passou por ele, colocou a caixa de balas sobre a mesa, ao lado da espingarda, e perguntou:

— Quem é o senhor?

— Amigo de Chapeuzinho.

— Estranho. Eu nunca o vi. Qual o seu nome?

— Wolfson.

— Nome engraçado.

— Nomes são apenas nomes.

— É verdade.

— Sua filha me disse isso.

— Como sabe que ela é minha filha?

— Ela o descreveu, certa vez.

— De onde a conhece?

— Ela disse para você subir — disse a mãe de Chapeuzinho, parada na escada.

Ele subiu. O quarto dela era o segundo no corredor. Chapeuzinho Vermelho estava no peitoril da janela, os joelhos apoiando o queixo, e olhava para a rua. A mãe de Chapeuzinho fechou a porta e o Lobo ouviu-a afastar-se.

— Não achei que o veria de novo — disse ela.

— Pensei que estivesse morta.

Ela virou-se para ele. Ainda estava pálida. Não havia nenhuma cicatriz em seu pescoço, apenas em seus olhos. Ela olhou-o com tristeza.

— Você cuidou para que isso fosse verdade, não foi?

Ambos falavam baixo, inconscientemente.

— Sim — respondeu ele, encabulado.

— Mas eu não morro tão fácil. Como pode ver, eu cicatrizo rapidamente também. Mas acordar dentro de uma sepultura, bem, não é fácil para uma garota de dezesseis anos. Não é fácil para ninguém, de qualquer modo.

— Sinto muito.

— Eu sei que sente, lobinho.

Ele estremeceu.

— Infelizmente eu não morri. Alguma coisa que minha avó fez comigo, imagino. Desde que eu era pequena, meus machucados, por mais que parecessem sérios, saravam depressa. Ela era uma bruxa, você deve saber. A minha avó.

— Ouvi algo.

— Você veio me matar?

Ele demorou a responder.

— Não sei — disse, finalmente.

— Não sabe ou não pode?

Ela desceu da janela, sentou-se na cama e olhou para o espelho no outro lado do quarto.

— Você... — começou a dizer o Lobo.

— Eu queria morrer, sabe. Por isso eu fiz tudo que me mandou fazer na casa da minha avó.

— Mas por quê?

— Por que eu queria morrer? Esqueça isso.

— Foi sua avó que me disse para enterrá-la. Levei um susto danado. Ela estava morta e falando comigo.

— Você deve ter imaginado.

— Talvez — disse ele, mas duvidava.

Os dois ficaram em silêncio. O Lobo andou até a janela. Depois virou-se e examinou o quarto atentamente. Havia um calendário perto do espelho; uma imagem de um lago profundo e a data: 18 de novembro de 1917.

— Não imaginei que tivesse passado tantos anos — Ele se referia ao tempo em que abandonara a humanidade e se tornara lobo. Ele a olhou. — Como me reconheceu?

— Lobo em pele de homem. Eu o reconheceria de qualquer modo. Em qualquer lugar.

— Eu vou embora.

— Por que veio aqui?

— Não sei. Talvez você seja tão bruxa quanto sua avó e tenha me enfeitiçado — disse ele, meio brincando, meio sério.

Ela sorriu, andou até ele e beijou-o, um beijo quente, demorado.

— Esse é o único feitiço que eu conheço.

— Eu ainda tenho seu cheiro em mim — ela disse e afastou-se. — Desde aquela noite.

— Eu vou embora.

— Você volta para me ver?

— ... Não. Esse lugar é perigoso demais para os da minha espécie.

— Então eu irei vê-lo no bosque.

— Eles permitirão que você volte lá, depois do que aconteceu?

— Eles não precisam saber.

A mãe de Chapeuzinho Vermelho entrou sem bater e encarou-os, desconfiada.

— Seu pai está inquieto com vocês dois aqui em cima, sozinhos — disse ela.

— Já estou de saída — disse o Lobo.

Na semana seguinte, Chapeuzinho Vermelho foi encontrar-se com o Lobo no bosque. Ela havia dito à sua mãe que iria dar uma volta pela cidade e, sim, mãe, vou me manter longe do bosque.

Quando alcançou a trilha que ia dar na casa de sua avó, Chapeuzinho soube que estava sendo observada. O Lobo saltou diante dela, o pelo escuro, os olhos amarelos, e observou-a atentamente.

— Você não me assusta – disse ela.

— Eu sei.

Ela tocou o pelo do Lobo. Ele pareceu estremecer. Chapeuzinho começou a despir-se, mas o Lobo a deteve. Ele farejava o ar.

— O que foi?

— Você foi seguida.

— Tem certeza? Eu tomei bastante cuidado e...

A bala acertou-o no ombro e ele ganiu. Chapeuzinho gritou. O Lobo caiu. Então, ergueu-se depressa.

Cavalos aproximavam-se rapidamente.

— Fuja — gritou Chapeuzinho.

Ele correu, um tanto lento por causa do ferimento, mas ainda rápido. As balas passavam por ele, arrancando lascas de árvores e terra. Ele olhou para traz e viu os cavalos e os homens armados sobre eles. Ele correu como nunca correra antes e, apesar daquele bosque ser sua morada a centenas de anos e o Lobo conhecê-lo como a si mesmo, eles o encurralaram no alto de um precipício. Ele olhou para baixo e viu um rio sinuoso e que seguia a perder de vista. Olhou para traz e viu os homens armados chegando depressa. E saltou.

Os homens desceram dos cavalos e ainda estavam atirando nele quando ele atingiu a água e foi arrastado pela força da água.

Chapeuzinho Vermelho, de joelhos no meio da trilha, chorava.

Noite. Lua cheia. Não há uivos essa noite no bosque.