



Peter Jackson adapta "Temeraire”
Segundo o Hollywood Reporter, o realizador Peter Jackson (“The Lord of the Rings”, “King Kong”) está de olho numa outra obra de fantasia para adaptar à grande tela. Desta vez trata-se de "Temeraire”, uma série de fantasia escrita por Naomi Novik, que de momento se encontra com três livros - "His Majesty's Dragon", "Throne of Jade" e "Black Powder War".
A saga "Temeraire” reimagina as guerras de Napoleão com a adição de uma força aérea de dragões e valentes aviadores.
A história centra-se no britânico Will Laurence que, ao capturar um barco francês, descobre um ovo de dragão no seu interior - um presente do Imperador Chinês para Napoleão. Quando o dragão nasce, o capitão é forçado a abandonar a carreira naval para se tornar no capitão do dragão ao qual irá chamar Temeraire.
Para Jackson, “Temeraire” é uma magnífica mistura de dois géneros que adora, fantasia e épico histórico. “Não posso esperar para ver as batalhas entre um esquadrão de dragões”.
Peter Jackson ainda não decidiu se irá apresentar a história em um ou três filmes, ou por outro meio.
“Enquanto lia os livros, eu conseguia vê-los tornarem-se reais na minha mente”, disse Jackson. “São obras extremamente bem escritas, (…) mas repletas de maravilhosas personagens com corações verdadeiros”.
Jackson escolheu Alice Sebold (“The Lovely bones”) para adaptar o argumento, e está a escreve-lo juntamente com Fran Walsh (“The Lord of the Rings”) e Philippa Boyens (“The Lord of the Rings”), com o intuito de falar com os distribuidores somente depois do guião estar terminado. Ele tenciona realizar o filme na segunda metade do próximo ano.
Novik escreveu o seu primeiro livro da saga “Temeraire” em 2004. Quando Del Rey o viu, a editora pediu-lhe mais dois livros. A série foi publicada na Primavera. De momento, Novik encontra-se a escrever o quarto livro da saga.
Luís Ferreira (do site c7nema)



Depois de Senhor dos Aneis, As Crônicas de Nárnia, Harry Poter etc, os produtores estão loucos para emplacarem outra série de fantasia nos cinemas. Eragon é a nova tentativa. Espadas, Dragões, Feiticeiros, Tiranos... Nada de muito novo no horizonte, mas os fãs da série de livros do autor Christopher Paolini(é, uma série de livros de fantasia, mais uma) já estão babando para ver o jovem Eragon enfrentando enormes desafios e efeitos visuais de primeira. Estréia 15 de dezembro.
Uma Taça feita de um Crânio Humano
(Lord Byron)
Não recues! De mim não foi-se o espírito...
Em mim verás - pobre caveira fria -
Único crânio que, ao invés dos vivos,
Só derrama alegria.
Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte
Arrancaram da terra os ossos meus.
Não me insultes! empina-me!... que a larva
Tem beijos mais sombrios do que os teus.
Mais vale guardar o sumo da parreira
Do que ao verme do chão ser pasto vil;
- Taça - levar dos Deuses a bebida,
Que o pasto do réptil.
Que este vaso, onde o espírito brilhava,
Vá nos outros o espírito acender.
Ai! Quando um crânio já não tem mais cérebro
...Podeis de vinho o encher!
Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça,
Quando tu e os teus fordes nos fossos,
Pode do abraço te livrar da terra,
E ébria folgando profanar teus ossos.
E por que não? Se no correr da vida
Tanto mal, tanta dor ai repousa?
É bom fugindo à podridão do lado
Servir na morte enfim p'ra alguma coisa!...
(Tradução de Castro Alves)
A missa das Sombras
de Anatole France
Eis o que o sacristão da igreja de Santa Eulália, em Neuville-d'Aumont, me contou debaixo da latada do Cavalo-Branco, numa bela noite de verão, bebendo uma garrafa de velho vinho, à saúde de um morto muito abastado, que ele havia enterrado honrosamente naquela manhã mesma, sob um tecido cheio de belas lágrimas de prata.
"Meu finado e pobre pai (quem fala é o sacristão) foi, em vida, coveiro. Era de humor agradável, e isso sem dúvida decorria de sua profissão, porque se tem reparado que as pessoas que trabalham nos cemitérios possuem espírito jovial. A morte não os atemoriza absolutamente; jamais se preocupam com ela. Eu, que lhe estou falando, senhor, penetro num cemitério, à noite, tão serenamente quanto no caramanchão do Cavalo-Branco. E se, por acaso, encontro um espectro, não me inquieto absolutamente com isso, porque reflito que ele pode perfeitamente ir cuidar de seus negócios, da mesma forma que eu dos meus. Conheço os hábitos dos mortos e seu caráter. Sei a tal respeito coisas que os próprios sacerdotes ignoram. E o senhor ficaria surpreso se lhe contasse tudo que tenho visto. Mas, nem todas as verdades são próprias para serem contadas, e meu pai, que, todavia, gostava de narrar histórias, não revelou a vigésima parte do que sabia. Em compensação, repetia muitas vezes as mesmas narrativas e. ao que eu saiba, relatou bem umas cem vezes a aventura de Catarina Fontaine.
Catarina Fontaine era uma velha solteirona, que ele se lembrava de ter visto
Catarina Fontaine vivia sozinha nessa pequena habitação. Fazia rendas. O senhor sabe que as rendas de nossa região eram, antigamente, muito afamadas. Não se conheciam parentes ou amigos seus. Dizia-se que amara, aos dezoito. anos, o jovem cavaleiro d'Aumont", com quem noivara secretamente. Mas as pessoas de bem não queriam acreditar absolutamente nisso e diziam tratar-se de uma história que fora imaginada, porque Catarina Fontaine lembrava mais - uma dama, que uma operária, conservava 'sob seus cabelos brancos os vestígios de uma grande beleza, possuía um ar triste e se lhe podia ver, na mão, um desses anéis em que o ourives colocara duas mãozinhas unidas e que era costume outrora os noivos trocarem. O senhor saberá, daqui a pouco, o que isso significa.
Catarina Fontaine vivia santamente. Freqüentava as igrejas e, todas as manhãs, qualquer que fosse o tempo, ia ouvir a missa de seis horas,
O
As naves laterais enchiam-se de multidão de jovens artesãos, de casaco pardo. calções de fustão e meias azuis, que seguravam pela cintura raparigas lindíssimas, rosadas, que conservavam os olhos baixos. E, junto ás pias de água benta, camponesas de saia vermelha e corpinho de atar, sentavam-se no chão com a tranqüilidade dos animais domésticos . enquanto uns mocetões, de pé atrás delas, - alavam os olhos, rodando o chapéu nos dedos. E todas aquelas fisionomias silenciosas pareciam imobilizadas para sempre, no mesmo pensamento, suave e triste. Ajoelhada em seu lugar costumeiro, Catarina Fontaine viu o sacerdote caminhar para o altar, precedido por dois acólitos. Não reconheceu nem o sacerdote, nem os ajudantes. Começou a missa. Era uma silenciosa missa, na qual não se ouvia absolutamente o som dos lábios que se agitavam, nem o rumor da sinéta agitada inutilmente. Catarina Fontaine sentia-se sob o olhar e sob a influência de seu misterioso vizinho e, tendo olhado, sem quase volver a c- reconheceu o jovem cavaleiro d'Aumont-Cléry, que a havia amado e que morrera fazia quarenta e cinco anos. Reconheceu-o por um sinalzinho que ele possuía sob a Orelha esquerda e, principalmente, pelo sombreado dos longos cílios negros em seu 'rosto. Vestia o traje de caça, com botões dourados, que ele usara no dia em que tendo-a encontrado no bosque de São Bernardo, roubara-lhe um beijo. Conservava a Sua Mocidade e seu bom aspecto. Seu sorriso ainda mostrava uma dentadura de jovem lobo. Catarina disse-lhe, baixinho:
- Senhor, vós que fostes meu amigo e a quem dei outrora o que uma jovem possui de mais precioso, Deus vos tenha em sua graça! Possa ele me inspirar, finalmente, o pesar pelo pecado que cometi convosco: porque é verdade que, de cabelos brancos e próxima da morte, ainda não me arrependo de vos ter amado. Mas, finado amigo, meu belo senhor, dizei-me, quem são essas pessoas trajadas à maneira antiga, que estão assistindo aqui a esta silenciosa missa.
O cavaleiro d'Aumont-Cléry respondeu com uma voz mais débil que um sopro e, não obstante, mais clara que o cristal:
- Catarina, esses homens e essas mulheres são almas do purgatório, que ofenderam a Deus, pecando, a nosso exemplo, pelo amor das criaturas, mas que nem por isso estão desligadas de Deus, porque seu pecado foi, a exemplo do nosso, sem maldade. Enquanto separadas daqueles que amavam sobre a terra, elas se purificam no fogo do purgatório, padecem as dores da ausência, e para elas esse sofrimento é o mais cruel. São tão infelizes que um anjo do céu se apiedou de seu martírio de amor. Com o consentimento de Deus, reúne, todos os anos, durante uma hora da noite, o amigo à amiga em sua igreja paroquial, onde lhes é permitido assistir à missa das sombras, segurando-se pela mão. Esta é a verdade. Se me foi permitido ver-te aqui antes de tua morte, Catarina, tal coisa não se realizou sem a permissão de Deus.
E Catarina Fontaine lhe respondeu:
- Bem desejaria morrer para voltar a ser formosa como nos dias, meu finado senhor, em que te dava de beber na floresta.
Enquanto falavam assim, baixinho, um cônego muito idoso recolhia as esmolas e apresentava uma grande salva de cobre aos presentes, que ali deixavam cair sucessivamente moedas antigas, desde muito tempo fora de circulação: escudos de seis libras, florins, ducados, nobres com a rosa, e as moedas caíam em silêncio.
Quando a salva de cobre lhe foi apresentada, o cavaleiro depositou um luís, que não fez mais ruído que as outras moedas de ouro ou de prata.
Depois, o velho cônego parou em frente de Catarina Fontaine, que procurou em seu bolso, sem nele encontrar, um real. Então, não desejando recusar sua dádiva, tirou do dedo o anel que o cavaleiro lhe dera na véspera de sua morte, e atirou-o na concha de cobre. O anel de ouro, ao cair. ressoou como um pesado badalo de sino e, ao ruído atroador que ele fez, o cavaleiro, o cônego, o oficiante, os agitaram, as damas, os cavaleiros, toda a assistência desapareceu; os círios se apagaram e Catarina Fontaine ficou sozinha nas Trevas".
Tendo concluído assim sua narrativa, o sacristão bebeu um grande copo de vinho, ficou um instante a meditar e depois prosseguiu, nestes termos:
"Contei-lhe esta história exatamente como a ouvi muitas vezes de meu pai e creio que é verdadeira, porque corresponde a tudo o que tenho observado das maneiras e dos costumes peculiares dos defuntos.
"Convivi com os mortos, desde minha infância, e sei que eles costumam voltar a seus amores.
- É por isso que os mortos avarentos vagam, à noite, nas proximidades dos tesouros que eles esconderam durante a vida.
Montam boa guarda à volta de seu ouro; mas os cuidados que eles tomam, longe de lhes servirem, prejudicam-nos, e não é raro descobrir-se dinheiro enterrado na terra, pesquisando-se o sítio freqüentado por um fantasma. Da mesma forma, os finados maridos vêm atormentar, à noite, suas mulheres, casadas em segundas núpcias, e eu poderia indicar muitos que vigiaram melhor suas esposas depois de mortos do que o haviam feito em vida...
Esses são dignos de censura, porque, em boa justiça, os defuntos não deveriam ser ciumentos. Mas lhe estou Contando o que tenho observado. Por isso é que se deve ter cuidado quando se desposa uma viuva. Aliás, a história que lhe relatei tem sua comprovação no seguinte fato:
"Na manhã seguinte a essa noite extraordinária, Catarina Fontaine foi encontrada morta em seu quarto. E o padre de Santa Eulália encontrou, na salva de cobre que servia para o peditório, um anel de ouro, com duas mãos entrelaçadas. Aliás, não sou homem que conte histórias para fazer rir. E se pedíssemos outra garrafa de vinho...?"


Franz Kafka
Ficou demonstrado que um assassinato aconteceu do seguinte
modo:
Schmar, o assassino, por volta das nove horas de uma
noite enluarada, posiciona-se na esquina daquela rua pela qual Wese, a
vítima, ao sair de seu escritório, na rua paralela, terá de dobrar, a
caminho de sua casa.
O ar da noite é de um frio cortante. Schmar, entretanto,
usa uma leve roupa azul, além de trazer o casaco desabotoado. Ele não
sente frio nenhum, mantém-se sempre
para o crime, meio-termo entre baioneta e faca de cozinha, ele a
segura firme pelo cabo, inteiramente a descoberto. Examina-a à luz da
lua, a lâmina da faca cintila, mas isso não é o suficiente para Schmar;
esfrega-a com força na calçada, provocando faíscas; talvez tenha se
arrependido disso e, para reparar o ato, passa-a como um arco de
violino na sola da bota, enquanto inclinado para a frente, com uma
perna levantada, fica simultaneamente a escutar com atenção o som da
faca sobre a bota e algum som premonitório que viesse da rua.
Por que o cidadão Pallas, que olhava tudo de sua janela,
no segundo andar, bem próximo dali, permitiu que tudo acontecesse?
Indague ao mistério da natureza humana! Com a gola levantada, o
roupão bem atado em torno da barriga volumosa, sacudindo a cabeça,
ele olha para baixo.
E cinco casas adiante, no lado oposto da rua, a senhora
Wese, o abrigo de pele de raposa sobre a camisola, espia a vinda do
marido, que hoje, fora de seus hábitos, está demorando a chegar.
Finalmente soa a campainha da porta do escritório de
Wese, som demasiado alto para uma campainha de porta, que percute
sobre a cidade na direção dos céus, e Wese, o diligente trabalhador
noturno, sai dali para sua casa, ainda invisível naquela rua, apenas
anunciado pelo som da campainha; a seguir o calçamento registra os
seus passos calmos.
Pallas espicha-se um pouco mais para fora; não deve
perder nada. A senhora Wese, tranqüilizada pelo som da campainha,
fecha ruidosamente a janela. Schmar, no entanto, ajoelha-se curvado;
como não tem naquele instante outras partes do corpo descobertas,
pressiona só o rosto e as mãos contra a calçada; enquanto tudo mais
está gelado, Schmar arde.
Precisamente no limite de separação das ruas, Wese se
detém, apenas escorando a bengala na calçada da rua seguinte. Um
capricho. O céu noturno o seduziu, o azul escuro e o dourado. Sem
saber de nada, olha para o alto; sem saber de nada, ergue o chapéu e
alisa os cabelos; nada encontra no alto que mostre um sinal do futuro
que o aguarda; tudo permanece no seu absurdo, inescrutável lugar. A
rigor, é bastante lógico que Wese siga adiante; porém ele segue na
direção da faca de Schmar.
"Wese!", grita Schmar, ficando na ponta dos pés, o braço
estendido, a faca afiada para baixo, em posição. "Wese! É em vão que
Júlia espera por ti!" E à direita no pescoço e à esquerda no pescoço e a
terceira vez fundo no ventre desfere Schmar os seus golpes. Ratos da
água, quando feridos, lançam sons semelhantes aos de Wese.
"Está feito", diz Schmar e atira a já supérflua faca suja de
sangue para a frente da casa mais próxima. "Bem-aventurança do
assassinato! Alívio, alado êxtase ante o escorrer do sangue alheio!
Wese, velha sombra noturna, amigo, companheiro de cervejaria, estás
esvaindo-te no escuro chão desta rua. Por que não és simplesmente
uma bexiga cheia de sangue, para que eu possa sentar sobre ti e
desmanchar-te de uma vez por todas? Nem tudo se realiza, nem todos
os sonhos em botão floresceram, teus sólidos restos ainda jazem aqui,
insensíveis a qualquer pontapé. Que tola resposta deve ser dada à
pergunta que agora representas?"
Pallas, sufocando toda a peçonha em seu corpo, surge de
corpo inteiro, abrindo a porta de duas folhas de sua casa. "Schmar!
Schmar! Eu vi tudo, nada deixei escapar." Pallas e Schmar se
defrontam. Pallas dá-se por satisfeito, Schmar não demonstra nada.
A senhora Wese, com uma multidão de cada lado, avança
apressada com o rosto envelhecido pela choque. O abrigo de pele se
abre, ela se joga sobre Wese, aquele corpo vestido de camisola
pertence a ele. O abrigo de pele que se estende sobre o casal, como a
relva num túmulo, pertence à multidão.
Schmar, contendo com esforço sua última náusea,
pressiona a boca sobre o ombro do policial, que o leva rapidamente
dali.





