sábado, 21 de julho de 2012

CONTO MICTÓRIO

José Marcelo

O rosto no espelho de um mictório público imundo. Um rosto marcado, sujo, velho, feio. Apenas outra noite fodida morrendo no canto do mundo.

E a luz do sol - rascunhos de claridade na janela empoeirada que não trazem nenhum prazer.

E a porta que se abre com uma pancada seca:

__ Que porra, Leroy, olha quem tá aqui! Olha quem tá aqui. Filho da puta filho da puta. Você não imagina o quanto eu queria te encontrar. Tá vendo, Leroy, tá vendo quem tá aqui?

A rizada de Leroy é um cacarejo:

__ Ic ic ic ic ic. É ele, Junior, é ele sim.

Ele não olha. O seu rosto no espelho o hipnotiza e ele – ele quer apenas ir para casa.

__ Que porra, se não é aquele merda que bateu na nossa Suely.

Ele sente o fedor da bebida quando Junior murmura em seu ouvido:

__ Oi, seu merda. Sabe o que acontece agora, não sabe? Seu merda. Seu MERDA.

Ele não olha – continua mijando. Um jato amarelo, fétido, longo.

Quando eles o acertam – quando eles empurram sua cabeça contra o espelho e a carne amassada expele sangue e dor – ele não grita.

Eles o chutam e cospem e esmurram por tempo demais, mas ele não grita.

Suely gritou e chorou e pediu pelo amor de Deus não faz isso não faz pelo amor de Deus não não não faz isso alguém me ajuda – Suely chorando encolhida no chão, nua e cheia de feridas enquanto ele a espancava e comia. Pelo amor de Deus não. E ele apenas sorrindo e dizendo vou comer seu cu e depois de comer seu cu vou te bater mais e mais, apenas ignorando Suely por favor me deixa não faz isso não faz isso.

Agora, Junior ofegante e trêmulo de raiva o chuta de novo e diz:

__ Então, gostou filho da puta? Gostou? O quê? O que você disse?

Ele repete:

__ Diga a Suely.

__ O quê? O QUÊ?

__ Diga a ela que ela foi a melhor foda da minha vida.

 

Mais contos aqui.

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